Resolvi começar a trazer para vocês um pouquinho dos contos que venho escrevendo ao longo destes últimos dois anos. Para começar a séria, escolhi um conto que foi muito bem recebido pelos meus leitores. Espero que curtam e deixem seus comentários.
A TERCEIRA XÍCARA
Pontualmente
às dezoito horas, como fazia sempre, Sônia retornou à sala para retirar o chá e
já encontrou Laura caída ao lado da poltrona.
Laura
havia perdido a sua filha precocemente, mas seu genro Eduardo — que vivia
afundado em dívidas de jogo — aparecia sempre para tentar tirar alguma
vantagem. Viúva de um milionário inglês, preservava os hábitos que adquiriu na
convivência com o falecido; o principal era o chá das cinco, que era servido
pontualmente por sua empregada: Sônia. Sua principal companhia era a amiga
inseparável Helena, que habitualmente dividia esse momento com ela.
Sônia
aproximou-se. Laura estava imóvel, com uma das mãos estendida sobre o tapete
persa. Chamou-a, repetiu, dessa vez mais alto. Ajoelhou-se ao seu lado e
tocou-lhe o ombro. O corpo ainda conservava algum calor, mas não havia
resposta.
Percebeu
uma caneta sobre a mesa. Não costumava ficar ali. Laura era meticulosa com seus
objetos, especialmente naquele ambiente onde nada parecia mudar de lugar. Sônia
chegou a estender a mão para recolhê-la, mas desistiu.
Olhou
novamente para as xícaras. Duas haviam sido utilizadas. A terceira permanecia
intacta, como sempre. Por alguns
instantes, ficou parada, tentando compreender o que havia acontecido naquela
última hora. Depois, correu até o telefone.
Quando a polícia chegou, encontrou a sala exatamente como Sônia a
deixara.
Ao
chegar à cena da morte, o detetive Miguel percebeu que aquela sala exalava um
requinte silencioso. Não era apenas o luxo das porcelanas ou a mobília herdada
de salões vitorianos, havia ali um ar misterioso. Quadros de pintores famosos ornavam as
paredes. Mas o que lhe chamou a atenção foi a mesa, onde havia três xícaras e
uma bela caneta.
—
Quem esteve aqui no dia de hoje, além de você? — perguntou o detetive.
Sônia,
ensaiando um choro pouco convincente, respondeu que naquela tarde, logo após o
chá ser servido, Helena saiu em disparada, alegando um compromisso importante.
Antes, por volta das dezesseis horas, uma visita inesperada de Eduardo
aconteceu, mas Sônia só percebeu sua presença quando ele já saía pela porta dos
fundos.
E
de quem seria a terceira xícara? — Perguntou mais uma vez o detetive.
A
empregada gaguejando um pouco respondeu que a patroa exigia sempre uma xícara a
mais na mesa, que ficava vazia. Uns diziam que era superstição, mas Laura a
definia como: “a presença da ausência”.
As
investigações prosseguiram e não tardou a sair o laudo de envenenamento,
comprovado pelo exame no chá da xícara de Laura, que detectou arsênio. No
cofre, que estava aberto, o testamento assinado com a data do dia anterior,
deixava quase toda a herança para o genro e as obras de arte para sua amiga.
Com a quebra de sigilo da conta de Sônia, descobriu-se que uma grande quantia
havia sido transferida de Laura para ela, na manhã da morte — com valor
suficiente para comprar silêncio... ou culpa.
Três
suspeitos. Nenhuma prova sólida. E nenhuma lágrima legítima.
Ao
voltar à casa para buscar mais pistas, o detetive Miguel encontrou Helena à
mesa de chá com três xícaras dispostas com esmero, como num altar particular.
Ela o convidou para a mesa. Serviu seu próprio chá e a xícara à frente de
Miguel, que observava atentamente seus movimentos.
—
Não vai beber, detetive? Deseja açúcar? — perguntou Helena, com certa
ironia.
—
De quem era a terceira xícara? — arriscou ele, de forma quase cerimonial.
Helena
segurou sua xícara como se segurasse um segredo antigo. Seus olhos buscaram a
cadeira vazia e, sem tirá-los dela, respondeu com uma calma que doía:
—
Era para quem nos entendia sem palavras: O amor. Ele não suportava mais as paredes —
continuou, num sussurro. — A morte abriu a última janela. Passamos a vida calando. Hoje, escolhemos
dizer tudo... em silêncio.
E
então levou o chá à boca e bebeu devagar. Sorriu com os olhos marejados e, em
seguida, tombou suavemente.
Miguel
se moveu para levantar-se, mas antes que pudesse agir, Helena já estava
desfalecida ao lado da mesa. O detetive se aproximou. Em seu colo, um envelope
com o nome de Laura.
Ele
abriu com cuidado. Dentro, um bilhete escrito com delicadeza e intenção:
“A quem encontrar estas
palavras,
Passamos a vida escondendo
aquilo que tínhamos de mais verdadeiro. Aos olhos do mundo, éramos duas amigas
inseparáveis. Entre nós, existia um amor que nunca pôde caminhar à luz do dia.
Amamo-nos nos silêncios,
nos encontros disfarçados, nos gestos interrompidos pela presença de alguém.
Construímos uma vida inteira dentro dos pequenos espaços que nos permitiram
ocupar.
Mas os anos passaram, e o
mundo continuou pequeno demais para o nosso amor.
Não nos faltou sentimento.
Faltou-nos a liberdade de vivê-lo.
Hoje, depois de tantos anos
de renúncias, escolhemos acreditar que exista, além desta vida, um lugar onde
não precisemos esconder as mãos, disfarçar os olhares ou chamar de amizade
aquilo que sempre foi amor.
Talvez estejamos enganadas.
Talvez a liberdade que procuramos não exista do outro lado. Mas foi nessa
esperança que encontramos a coragem para nossa última despedida.
Não pedimos que compreendam
nossa decisão. Apenas que saibam: por trás de tantos anos de silêncio, houve
duas mulheres que se amaram profundamente.
E, se algum dia perguntarem
por que havia sempre uma terceira xícara sobre a mesa, saibam que ela nunca
esteve vazia. Guardava tudo aquilo que nos foi negado nesta vida.”
Miguel terminou a leitura e permaneceu imóvel
por alguns instantes. Releu as últimas linhas, como se procurasse nelas alguma
explicação que lhe tivesse escapado.
Olhou para o corpo de Helena, imóvel à sua
frente, e depois para o bilhete. Pensou nos depoimentos, nas suspeitas, nos
testamentos. Todas as peças pareciam finalmente se encaixar, mas não da maneira
que imaginara.
Dobrou o papel cuidadosamente e o guardou no
envelope.
— Duas mortes... — murmurou, contrariado. — E
eu procurando um assassino.
Pela primeira vez em muitos anos de profissão,
Miguel não sabia se havia solucionado um caso ou simplesmente chegado tarde
demais.
Até a próxima,
Amo vocês,
Marcel Peixoto

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