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terça-feira, 29 de setembro de 2026

POST 299/26 - AINDA HAVIA ALGUÉM POR AQUI


 

Entrei sem nenhuma intenção especial. Talvez por curiosidade, talvez por saudade. Fazia tempo que eu não abria aquela porta. Estava tudo lá.

Os textos, as fotografias, os comentários, os títulos que um dia me pareceram tão importantes. Algumas coisas eu reconheci imediatamente. Outras precisei ler para acreditar que tinham sido escritas por mim. É estranho reencontrar nossas próprias palavras depois de tantos anos. Elas continuam sendo nossas, mas já não pertencem exatamente à pessoa que somos.

Então vi os números.  Quinze mil visitas no mês anterior. Quase dez mil naquele que ainda nem havia terminado. Mais de oitocentas num único dia.

— Mas quem está vindo aqui?

Por alguns minutos, confesso, gostei da ideia. Enquanto eu andava ocupado com livros, contos, lançamentos, saraus e tantas outras coisas, meu velho blog continuava recebendo gente. Imaginei desconhecidos chegando por acaso, lendo uma crônica, olhando uma fotografia, talvez pulando de um texto para outro. Foi uma sensação boa.

Boa demais, o que me fez desconfiar.  Resolvi investigar e a fantasia começou a perder um pouco do encanto. Muitos daqueles visitantes provavelmente não eram visitantes. Eram máquinas, mecanismos de busca, robôs percorrendo a internet e outras coisas que não saberiam distinguir uma crônica de uma lista telefônica.

Meus milhares de leitores desapareceram em poucos minutos. Curiosamente, não fiquei decepcionado. Continuei andando pelo blog.  Encontrei Monet. Encontrei Bracuhy. Encontrei o Cemitério dos Escravos, a Praça do Preto Velho, fotografias, viagens, flores, lembranças. Encontrei assuntos sobre os quais escrevi há mais de dez anos e que, de alguma maneira, continuaram caminhando comigo.  Foi quando parei de olhar as estatísticas.

Aquele lugar guardava uma parte de mim que eu havia deixado ali sem perceber. Um homem que fotografava o que encontrava pelo caminho e depois se sentava diante do computador para contar alguma coisa sobre aquilo. Ainda não havia publicado romances, livros infantis ou biografias. Sequer teria coragem de me apresentar como escritor. Apenas escrevia.  E escrevia porque gostava.

Passei mais algum tempo abrindo portas, mexendo em gavetas, reconhecendo coisas que julgava esquecidas.  Quando entrei, queria descobrir quem eram aquelas pessoas que ainda visitavam meu velho blog. Não encontrei quinze mil leitores. Encontrei um. Eu.

Ainda havia alguém por aqui.

 

Até a próxima,

                       Amo vocês, 

                                          Marcel Peixoto

 


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