Entrei sem
nenhuma intenção especial. Talvez por curiosidade, talvez por saudade. Fazia
tempo que eu não abria aquela porta. Estava tudo lá.
Os textos, as
fotografias, os comentários, os títulos que um dia me pareceram tão
importantes. Algumas coisas eu reconheci imediatamente. Outras precisei ler
para acreditar que tinham sido escritas por mim. É estranho reencontrar nossas
próprias palavras depois de tantos anos. Elas continuam sendo nossas, mas já
não pertencem exatamente à pessoa que somos.
Então vi os
números. Quinze mil visitas no mês
anterior. Quase dez mil naquele que ainda nem havia terminado. Mais de
oitocentas num único dia.
— Mas quem
está vindo aqui?
Por alguns
minutos, confesso, gostei da ideia. Enquanto eu andava ocupado com livros,
contos, lançamentos, saraus e tantas outras coisas, meu velho blog continuava
recebendo gente. Imaginei desconhecidos chegando por acaso, lendo uma crônica,
olhando uma fotografia, talvez pulando de um texto para outro. Foi uma sensação
boa.
Boa demais, o
que me fez desconfiar. Resolvi
investigar e a fantasia começou a perder um pouco do encanto. Muitos daqueles
visitantes provavelmente não eram visitantes. Eram máquinas, mecanismos de
busca, robôs percorrendo a internet e outras coisas que não saberiam distinguir
uma crônica de uma lista telefônica.
Meus milhares
de leitores desapareceram em poucos minutos. Curiosamente, não fiquei
decepcionado. Continuei andando pelo blog.
Encontrei Monet. Encontrei Bracuhy. Encontrei o Cemitério dos Escravos,
a Praça do Preto Velho, fotografias, viagens, flores, lembranças. Encontrei
assuntos sobre os quais escrevi há mais de dez anos e que, de alguma maneira,
continuaram caminhando comigo. Foi
quando parei de olhar as estatísticas.
Aquele lugar
guardava uma parte de mim que eu havia deixado ali sem perceber. Um homem que
fotografava o que encontrava pelo caminho e depois se sentava diante do
computador para contar alguma coisa sobre aquilo. Ainda não havia publicado
romances, livros infantis ou biografias. Sequer teria coragem de me apresentar
como escritor. Apenas escrevia. E
escrevia porque gostava.
Passei mais
algum tempo abrindo portas, mexendo em gavetas, reconhecendo coisas que julgava
esquecidas. Quando entrei, queria
descobrir quem eram aquelas pessoas que ainda visitavam meu velho blog. Não
encontrei quinze mil leitores. Encontrei um. Eu.
Ainda havia alguém por aqui.
Até a próxima,
Amo vocês,
Marcel Peixoto

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